6# GERAL 23.4.14

     6#1 ESPAO  TERRA 2.0
     6#2 IMPRENSA  BAIXARAM O VOLUME DELA
     6#3 GENTE
     6#4 MEMRIA  O ESCRITOR EM SEU LABIRINTO
     6#5 CRIME  ELE GRITOU, MAS NO DEU TEMPO

6#1 ESPAO  TERRA 2.0
Os cientistas da Nasa anunciam a descoberta do planeta mais parecido com a Terra encontrado at hoje. Ele deve ter gua lquida.

     Os planetas detectados fora do sistema solar tm desvantagens que desanimariam o mais hbil corretor imobilirio a convencer algum de ns a se mudar para l. Uns so gigantescas bolas de gs cortadas por furaces. Outros so slidos, mas o ar  irrespirvel e os mares so de metano, absolutamente desaconselhveis para uma temporada de veraneio com a famlia. Alguns tm srios problemas de localizao, pois orbitam estrelas duplas que travam uma eterna luta gravitacional, agitando bastante o ambiente, sem falar que de uma hora para outra eles podem ser ejetados do sistema ou engolidos por uma delas. J o planeta anunciado pela Nasa na semana passada, apesar do nome pouco atraente, , digamos, bem mais vendvel. No se encontrou at hoje outro mais parecido com a Terra. 
     Ele foi batizado de Kepler-186f e integra um sistema com mais quatro planetas, que orbitam uma estrela an, a Kepler-186. Est a meros 500 anos-luz de distncia, na nossa galxia, a Via Lctea. O Kepler-186f, detectado pelo satlite Kepler (homenagem ao alemo do sculo XVI, Johannes Kepler, que descobriu o formato elptico das rbitas),  o primeiro planeta a apresentar todas as caractersticas necessrias ao desenvolvimento de vida. Disse a VEJA a astrofsica Elisa Quintana, da Nasa  a agncia espacial americana , lder do time responsvel pela descoberta: "Conhecemos apenas um planeta onde existe vida, o nosso. Por isso, para achar em outros lugares, procuramos por planetas parecidos com a Terra". Kepler-186f  o melhor candidato. 
 excitante o fato de o novo planeta estar na distncia adequada da estrela que orbita. Essa regio  conhecida como "Cachinhos Dourados", uma bem-humorada e exata referncia  histria infantil da menina intrusa que entra em uma casa de ursos, encontra sopa servida em trs pratos, mas v que em apenas um deles a temperatura  ideal para que ela seja consumida. Em astrofsica essa  a "zona habitvel". No caso do sistema solar ela  uma faixa elptica entre 120 milhes e 300 milhes de quilmetros de distncia do Sol, com a Terra no meio. Nem longe demais que os oceanos congelem nem to perto que evaporem. O Kepler-186f tambm orbita uma zona habitvel. O planeta  rochoso, deve ter gua lquida e atmosfera, o ano dura 130 dias, mas capta apenas um tero da energia que a Terra recebe do Sol. Culpa da estrela que orbita, uma an vermelha. O Sol  uma an amarela  mas  a maior de todas as conhecidas. Instigante tambm em relao ao Sistema Kepler  o fato de que sete em cada dez estrelas da Via Lctea so ans vermelhas. Isso animou muito os corretores imobilirios da galxia. 
FILIPE VILICIC E RAQUEL BEER


6#2 IMPRENSA  BAIXARAM O VOLUME DELA
A ncora do SBT, hostilizada nas redes sociais e ameaada de processo pelo PSOL, no poder mais dizer o que pensa no jornal da emissora.

     A jornalista paraibana Rachel Sheherazade, 40 anos, passou as ltimas semanas negando rumores de que teria sido demitida do SBT Brasil, programa do qual  ncora. Segundo os boatos, o canal de Silvio Santos teria cedido  presso para tir-la do ar aps a enorme repercusso de declaraes suas sobre aborto (ela  radicalmente contra a legalizao) e segurana pblica (afirmou ser compreensvel a atitude de vingadores que prenderam um bandido num poste no Rio de Janeiro). Ao voltar de frias de Joo Pessoa, na ltima segunda-feira, ela foi convocada para uma reunio com a cpula da emissora, da qual saiu uma hora e meia depois proibida de continuar emitindo as opinies que provocam amor e dio nas redes sociais. Na mesma ocasio, porm, ouviu a promessa de que vai comandar um programa-solo no segundo semestre. "s vezes,  preciso dar um passo para trs antes de dar um salto para a frente", disse ela. "Sofro com as presses, mas sou boa de briga e dura na queda." 
     Um dos motivos do recuo do SBT envolve questes de segurana, de Sheherazade e da empresa. Nos ltimos tempos, a jornalista recebeu ameaas em posts da internet e torpedos de celular. Avisos do mesmo tipo chegaram  tambm a membros da equipe do telejornal. A apresentadora foi orientada a trocar o telefone, passou a ter um servio de escolta do canal e mandou blindar os carros da famlia. Em fevereiro, deputados do PSOL e do PCdoB entraram com representaes no Ministrio Pblico contra ela e a emissora para que ambas respondam civil e criminalmente por apologia ao crime. Desde que foi contratada, em 2011, Sheherazade gozava de plena autonomia no SBT. Nem sequer precisava aprovar com a chefia o texto que iria ler no ar. Essa liberdade fez com que seus comentrios chamassem mais ateno que o prprio programa, que registra uma mdia de 5 pontos de audincia. 
     A apresentadora  uma das quatro filhas de um casal de funcionrios pblicos. Depois de se divorciar, nos anos 80, quando Sheherazade era adolescente, o pai se casou novamente e teve outros dois filhos. A me morou por quatro anos nos Estados Unidos, onde trabalhou como estoquista de supermercado e faxineira. Nessa poca, Sheherazade ficou no Brasil, morando com a av materna. Evanglica, vai  Igreja Batista todo domingo. Durante o curso de jornalismo na Faculdade Federal da Paraba, trabalhou como professora de ingls at ser aprovada num concurso para tcnica judiciria do Tribunal de Justia. O cargo, de escrevente na Vara da Famlia, rendia-lhe um salrio de 3600 reais, em valores atualizados. Hoje, ela ganha 90.000 reais, 50.000 a mais que no ano passado, quando renovou seu contrato com o SBT. 
     O Partido Ecolgico Nacional (PEN) j a convidou para se lanar a vice-presidente da Repblica. A ncora tambm recebeu proposta do Partido da Repblica (PR) para disputar vaga de deputada federal. "Estou empenhada no jornalismo, por isso recusei", diz. Mas Sheherazade afirma que no descarta a possibilidade de ingressar na poltica um dia. "A certeza que tenho  que, onde quer que eu esteja, no vou me calar." 
JOO BATISTA JR.


6#3 GENTE
JULIANA LINHARES. Com Marlia Leoni, Tasa Szabatura e Thas Botelho

O PRIMEIRO-VIOLINO DE HOLLANDE
Ningum costuma prestar muita ateno no primeiro-ministro francs quando ele  do mesmo partido do presidente, mas MANUEL VALLS chegou chegando. Com instinto de matador espanhol  perdo, catalo, sua nacionalidade original , ele anunciou um corte oramentado de 50 bilhes de euros, incluindo o congelamento de aposentadorias e outros benefcios. Alm de afinar o estado da economia, ele precisa administrar a ciumeira do presidente Franois Hollande. Valls tem 58% de aprovao popular e Hollande, 18%. Mas basta olhar sua mulher, a violinista ANNE GRAVOIN para perceber que os dois tm muito em comum. Cabelo, decote, salto e postura de Anne so parecidssimos com os da ltima ex de Hollande, a explosiva Valrie Trierweiler. Se as encrencas forem similares...

UMA FERA PELA DEMOCRACIA
A cantora mais popular da Ucrnia, RUSLANA LYZHYCHKO, faz palestra em So Paulo nesta semana sobre a turbulncia poltica em seu pas, da qual participou como apaixonada manifestante por prticas democrticas e contra a corrupo. Uma amostra: 
O que significa Rusiana? Leoa. E meu estilo como cantora  selvagem. 
E politicamente? S quero um presidente escolhido em eleio livre e legtima e que lute pelo pas. Precisamos disso desesperadamente. 
O que viu de pior nas manifestaes da Praa da Independncia? Em 20 de fevereiro, enquanto eu lia a lista de mortos do dia anterior, uma amiga foi morta com um tiro que perfurou o celular no qual falava. Tenho amigos que foram sequestrados e torturados. 
E voc? Tive de mudar de apartamento cinco vezes. O ltimo foi invadido de madrugada por um militar. No sei como consegui fugir pela janela. 
O que diria se estivesse frente a frente com Vladimir Putin? Tire sua gente do meu pas. Mas sei que ele no vai parar at atingir sua meta, que  Kiev. 
Como sero as eleies presidenciais de maio? Nem sei se acontecero. At l, Putin j destruiu nosso pas. 

E PARA TIRAR ESSAS PERNAS DA CABEA?
A formao em bale clssico e as puxadas trs horas de treino dirias, mantidas at hoje, esto fazendo a diferena no novo papel de FERNANDA DE FREITAS, a Flavinha de Tapas & Beijos. "Nesta temporada, sou uma stripper e apareo sempre danando. Espacate eu no garanto, mas sou boa em levantar a perna at a cabea", diz Fernanda, perfeitamente consciente da riqueza de seu repertrio. Na contramo da redescoberta cinematogrfica da comdia, ela estreia neste ano um papel srio num filme em que interpreta uma violoncelista. H seis meses um namorado portugus compartilha os variados talentos da atriz. E, aos poucos, habitua-se s celebridades locais. "Ele achava que a Ana Maria Braga era a Xuxa!", diverte-se Fernanda.

L VEM A ME DO NOIVO; DE SUTI
Era o segundo casamento de seu filho nico, numa festa de trs dias de msica eletrnica, dentro de um navio, e nele havia 2000 pessoas curtindo a balada. Nada mais adequado do que SUSANA VIEIRA, 71, comparecer  cerimnia vestida para impressionar. "Eu estava chiqurrima. A camisa era de seda e o suti, para homenagear minha nora, que adora pink", descreve a atriz. "Eu me ajoelhei aos seus ps e dei a ela meu buque", retribui KETRYN GOETTEN, 33, mulher e empresria do DJ RODRIGO VIEIRA, 49. Com cerca de sessenta personagens na carreira, a atriz lana neste ano uma biografia. "Ela  a segunda mulher que mais fez papis na TV no pas: a primeira  Ana Rosa Galego", diz o coautor Mauro Alencar. Mas claro que o que todo mundo quer so mais detalhes de uma vida impressionantemente vivida como um livro aberto. 


6#4 MEMRIA  O ESCRITOR EM SEU LABIRINTO
...achou ridculo o formalismo da morte. Realmente no se importava com a morte, e sim com a vida, por isso a sensao que experimentou quando pronunciaram a sentena no foi uma sensao de medo, mas de nostalgia.
GABRIEL  GARCIA  MARQUEZ, em Cem Anos de Solido

Criador do "realismo mgico" e um dos autores mais populares da Amrica Latina, o colombiano Gabriel Garcia Mrquez morre no Mxico, aos 87 anos.
JERNIMO TEIXEIRA i RINALDO GAMA

     Passados muitos anos, diante da notcia da morte do escritor, seus leitores haveriam de recordar o dia em que Gabriel Garcia Mrquez os levou a Macondo e os apresentou aos Buenda, uma estirpe trgica condenada a 100 anos de solido, e cujos membros eram propensos aos mais estranhos fins  um ancio da famlia fundiu-se  vegetao do quintal, uma moa reclusa em um convento fugiu voando, alada por borboletas, um beb com rabinho de porco foi carregado por formigas. O mundo j era velho e conturbado no ano de 1967, quando Garcia Mrquez  familiarmente chamado de Gabo  publicou Cem Anos de Solido (cujo memorvel primeiro pargrafo  glosado aqui), livro fundador de um estilo que ficou conhecido como "realismo mgico" e grande propulsor do chamado boom literrio latino-americano, que revelou, entre outros, o peruano Mrio Vargas Llosa, o argentino Jlio Cortzar e o mexicano Carlos Fuentes  alm,  claro, do prprio Garcia Mrquez. O fundador de Macondo morreu na quinta- feira, dia 17, em sua casa na Cidade do Mxico, de complicaes decorrentes de um cncer. Nos ltimos anos, foi assolado tambm pelo Alzheimer. 
     A expresso "realismo mgico"  um tanto equvoca. A simples irrupo de elementos fantsticos no cotidiano, afinal, aparece em vrios autores europeus do sculo XIX (O Nariz, do russo Nikolai Gogol, por acaso seria realismo fantstico?). O termo quase nunca  aplicado para definir obras escritas acima da linha do Equador:  uma categoria latino-americana. A rigor, Gabriel Garcia Mrquez , sozinho, o realismo mgico.  com Cem Anos de Solido  um best-seller mundial, com mais de 40 milhes de exemplares vendidos  que o estilo se cristaliza, em todos os seus elementos: a cidadezinha atrasada, dominada por cls oligrquicos, em cujo cotidiano o maravilhoso parece nascer das pedras. Calcada em Aracataca, cidade colombiana onde Garcia Mrquez nasceu, em 1927, Macondo  uma espcie de representao literria do atraso latino-americano; no entanto, o autor sempre teve a destreza de no deixar sua criao se esvaziar em uma  mera alegoria poltica: o leitor  envolvido  pela iluso de uma cidade real, palpvel at na sua umidade. 
     A lista de escritores de quem Garcia Mrquez  devedor  longa e heterognea. Do americano William Faulkner, criador do condado fictcio de Yoknapatawpha, no sul dos Estados Unidos, Gabo ter herdado a capacidade de conjurar um territrio interiorano que parece autossuficiente, como um universo regido por regras muito prprias. De Jorge Lus Borges, o pendor para um certo absurdo metafsico. O checo Franz Kafka ter contribudo com a ousadia de levar o fantstico ao extremo: em uma entrevista de 1981  Paris Review, Gabo recorda a experincia de ler A Metamorfose pela primeira vez, em meados da dcada de 40, em uma penso de Bogot, nos dias em que cursava a faculdade de direito (nunca chegou a exercer a advocacia: antes de se tornar escritor, foi, sobretudo, jornalista): "A primeira frase  que conta como Gregor Samsa acorda e se v transformado em um imenso inseto  quase me derrubou da cama. Eu no sabia que se podia escrever daquela forma. Se soubesse, teria comeado a escrever mais cedo". O modo como Garcia Mrquez conjuga e mistura essas influncias merece esse adjetivo to desgastado em resenhas literrias: original. Da forma como praticado por ele, o tal "realismo mgico"  uma espcie de lente deformadora aplicada sobre a dura realidade  pobreza, atraso, violncia  tantas vezes descrita pelo velho realismo social. Tome-se o exemplo de A Incrvel e Triste Histria de Cndida Erndira e Sua Av Desalmada, conto que d ttulo a uma coletnea publicada em 1972. O enredo de explorao sexual  perfeita e tristemente plausvel em rinces atrasados da Amrica do Sul: uma av prostitui a neta adolescente. Mas ento entra o olhar pitoresco e exagerado de Gabo, e a jovem prostituta recebe filas de homens em uma s noite, a ponto de encher baldes com o suor acumulado nos lenis. 
     Ainda que tenha sido consagrado pelo Prmio Nobel, em 1982, muitos crticos e escritores desdenharam a exuberncia da fantasia e do estilo de Garcia Mrquez, diversas vezes acusado de vender uma imagem extica da Amrica Latina. O escritor Guillermo Cabrera Infante, cubano dissidente da ditadura de Fidel Castro, comparou o colega colombiano  espalhafatosa Carmen Miranda: assim como se dizia que a cantora era the lady with the tutti frutti hat (a mulher do chapu de tutti frutti), Garcia Mrquez seria, de acordo com a tirada cida de Cabrera Infante, the writer with the tutti frutti pen (o escritor da caneta de tutti frutti). Mas a literatura de Garcia Mrquez no se resume a mulheres voadoras e a cidades nas quais chove por anos a fio. Sua literatura madura dispensou grande parte desse aparato sobrenatural. O Amor nos Tempos do Clera  um pungente retrato do romance outonal  e o erotismo da idade tardia  retomado em Memrias de Minhas Putas Tristes, seu ltimo livro. 
     "Morrer  nunca mais estar com os amigos", escreveu Garcia Mrquez no prefcio de Doze Contos Peregrinos, narrativas baseadas em sua experincia europeia (na dcada de 50, trabalhando como correspondente, ele viveu em Roma e Paris  e jamais se sentiu confortvel por l; sentia-se, numa palavra, "solitrio"). Curiosamente, uma de suas maiores amizades foi construda com algum que no o admirava como escritor: o ditador cubano Fidel Castro, cuja presena oculta parece pesar sobre alguns dramas polticos do escritor (O Outono do Patriarca e at O General em Seu Labirinto, romance histrico sobre Simn Bolvar). O bigrafo ingls Gerald Martin, autor de Gabriel Garcia Mrquez: uma Vida, relata que Fidel sempre considerou a fico do colombiano pessimista e fantasiosa. A palavra que os unia era a poltica, esta, sim, capaz de tecer, em demoradas conversas, uma lngua comum entre dois homens aparentemente to distintos em sua humanidade. Sim, distintos: diante da realidade miseravelmente fantstica de Cuba, com sua profisso de f no silncio imposto aos opositores do regime, a veia realista de que tanto se orgulhava o Garcia Mrquez escritor e jornalista se entupia de forma desconcertante. 
     Um entupimento de que escapou, por exemplo, outro Nobel de larga envergadura, o portugus Jos Saramago: em 2003, aps a execuo, pelo governo castrista, de um grupo de dissidentes, ele anunciou o seu rompimento com Havana (embora em 2005 voltasse a elogiar Fidel). Na poca, a escritora e ensasta americana Susan Sontag chegou a criticar Garcia Mrquez por no se haver manifestado contra os fuzilamentos. Ele se declarou contra a pena de morte  mas, haja contradio, ficou do lado do ditador. 
     Por contraste, o mexicano Octavio Paz e o peruano Vargas Llosa, que, como Garcia Mrquez, foram fervorosos admiradores da Revoluo Cubana, acabaram rompendo com o totalitarismo tropical (ambos, alis, com mais vigor do que Saramago). Vargas Llosa e Garcia Mrquez foram grandes amigos  conheceram-se em Barcelona, depois da publicao de Cem Anos de Solido, sobre o qual o peruano escreveu um ensaio entusiasmado. A admirao mtua, contudo, se desfez em 1976, com direito a cenas de pugilismo explcito em um cinema do Mxico. O colombiano teria levado a pior, saindo da briga com um olho roxo. 
     Durante dcadas especulou-se qual teria sido o motivo do rompimento. A poltica seria uma razo mais do que suficiente para isso  Vargas Llosa no apenas se distanciou do esquerdismo da juventude como se tornaria um defensor do liberalismo. Mas uma verso nada inverossmil d conta de que Vargas Llosa brigou com Garcia Mrquez por cime de sua mulher. O colombiano parecia cultivar, de fato, um indisfarvel donjuanismo. Certa vez, ele disse que, onde quer que entrasse, algo de inevitvel acontecia: a mulher mais bonita do local lhe dirigia o olhar. Indagado, em 2012, sobre o motivo de ter deixado de ser amigo de Garcia Mrquez, Vargas Llosa declarou: "Vamos deixar essa pergunta sem resposta.  um trato que ele e eu temos. Vamos deixar que nossos bigrafos, se os merecermos, investiguem a questo". 
     Na estreita e labirntica via de mo nica que conduz a vida inexoravelmente para a morte,  provvel que poucas perdas se comparem  de um amigo. Garcia Mrquez sabia disso. Em uma ocasio, sonhou com o prprio enterro, que ocorria em clima de descontrao, na companhia de seus melhores parceiros. Quando eles comearam a ir embora, tentou acompanh-los  at que um se virou e disse que, para ele, a festa acabava ali. Agora que a morte deixou de ser apenas um sonho na vida de Gabriel Garcia Mrquez, pode-se constatar que a festa de sua literatura vai prosseguir: a escrita no deixa de ser uma demonstrao de amizade do autor para com o mundo, para alm do seu espao e do seu tempo. 


6#5 CRIME  ELE GRITOU, MAS NO DEU TEMPO
Bernardo, que a polcia afirma ter sido morto pela madrasta, com a cumplicidade do pai, chegou a ir sozinho ao frum pedir para ser adotado por outra famlia.
BELA MEGALE E ISABEL MARCHEZAN, DE TRS PASSOS (RS) 

     Na tarde de 24 de janeiro, um menino de 11 anos entrou sozinho na sala do Centro de Defesa dos Direitos da Criana e do Adolescente, no frum da cidade gacha de Trs Passos. Em voz baixa, explicou que estava l porque sua madrasta o xingava e seu pai no lhe dava ateno. Os funcionrios ouviram a histria de Bernardo Uglione Boldrini e o levaram  sala da promotora da Infncia e da Juventude Dinamrcia Maciel de Oliveira. Sentado em seu colo, Bernardo disse que queria sair de casa: "Ningum me d bola l. Eu quero uma famlia que cuide de mim". "Foi a primeira vez em quinze anos de Ministrio Pblico que uma criana veio nos procurar", diz a promotora. Na semana passada, essa histria triste teve um final trgico. Depois de dez dias desaparecido, Bernardo foi encontrado morto, enterrado em uma cova. Na quinta-feira, a delegada Caroline Machado disse ao site de VEJA no ter dvidas sobre a autoria do crime: "Bernardo foi morto pela madrasta com a ajuda de uma amiga. E seu pai participou do crime". 
     A histria de Bernardo, um garoto magricela, de cabelos castanhos, era conhecida de boa parte dos pouco mais de 20.000 moradores de Trs Passos, a 500 quilmetros de Porto Alegre. Sua me morreu em 2010, em um caso de aparente suicdio. Menos de um ms depois, o pai, Leandro Boldrini, um cirurgio respeitado na regio, j era visto com Graciele, uma enfermeira bonita e loira que ele havia contratado como secretria em sua clnica. "Graciele sempre quis se casar com um mdico", diz a amiga Sandra Cavalheiro. Se, para a enfermeira, a unio com Boldrini foi a realizao de um sonho, para Bernardo foi o incio de um calvrio testemunhado por muita gente em Trs Passos. 
     Apesar de pertencer a uma famlia de classe alta, morar em uma casa com piscina e vaga para quatro carros, o menino vivia "como um miservel", conta a ex-vizinha Carmina Lcia Negrini. "Num dia de muito frio, ele estava trancado do lado de fora s com chinelo de dedo. Uma dentista ficou com pena e o levou para casa. Era sempre assim. Contam vizinhos e colegas de escola que Bernardo nunca tinha dinheiro para comprar lanche, s usava sapatos velhos, no tinha casacos para o rigoroso inverno gacho e passava dias com o mesmo uniforme surrado  presente de Juara e Carlos Petry, o casal que praticamente o havia adotado. Era na casa deles que Bernardo dormia boa parte do ms, fazia refeies e lies da escola. O menino chamava os filhos do casal de "mano" e "mana". "A Juara at cortava as unhas dele", contou Ftima Uglione, prima de Bernardo. Todas as vezes que o casal tentava fazer o menino falar dos problemas em casa, ele cortava o assunto. 
     A morte de Bernardo foi um caso em que a Justia no tardou, mas no final falhou. Na tarde em que ele foi sozinho ao Centro da Criana e do Adolescente, declarou que queria ficar com a famlia Petry. Uma promotora chegou a procurar Carlos e Juara, mas eles preferiram no se indispor com o pai do menino. Diante disso, a promotora entrou com uma ao, no dia 31 de janeiro, pedindo a transferncia da guarda de Bernardo para a sua av materna, Jussara Uglione (veja a entrevista na pg. 82). Na audincia que se seguiu  abertura do processo, Boldrini negou-se a entregar a guarda do menino. Pediu uma segunda chance e disps-se, inclusive, a atender a alguns desejos do filho, como ter um peixinho de aqurio (a madrasta havia proibido qualquer animal de estimao  em casa). Como no havia sinais de que a criana sofresse violncia fsica, o juiz Fernando Vieira dos Santos concedeu noventa dias para que Boldrini cumprisse a promessa de melhorar sua relao com o filho. Bernardo foi morto trinta dias antes de o prazo expirar. 
     O ginecologista Ivo Weis, colega e ex-vizinho de Boldrini, afirma que Graciele tentava jogar o marido contra o filho. "Segundo uma bab, ela inventava coisas que o Bernardo teria feito para que o pai o castigasse quando chegasse em casa", diz. A situao do menino piorou quando o cirurgio e Graciele tiveram uma filha, h mais de um ano. Bernardo adorava a irm, mas a madrasta o proibia de peg-la. No dia em que ele desapareceu, no entanto, Graciele deixou que ele a abraasse. "Ela nem exigiu que ele lavasse as mos. Achamos to estranho que at comentamos, eu e a bab da nen", conta a empregada Margarete Machado. 
     A indiferena paterna no foi suficiente para matar o amor filial. Por anos, Bernardo manteve-se calado, sem se queixar. No ano passado, chegou a declarar a um jornal da cidade, numa seo de perfis infantis chamada Espao Criana, que queria ser mdico e que Boldrini era seu "heri". Quando a me morreu, ele tinha 7 anos. Na ocasio, Odilaine e Boldrini estavam se separando. Havia partido do cirurgio a iniciativa do divrcio, ao qual a mulher resistiu por algum tempo. Estava tudo acertado para que Odilaine recebesse metade do patrimnio familiar  1,5 milho de reais, mais uma penso de, ao menos, 6000 reais  quando ela foi encontrada morta no antigo consultrio do cirurgio, com um tiro na cabea. A polcia concluiu que se tratou de suicdio, mas a famlia nunca acreditou. O advogado Marlon Taborda, que defende a famlia dela, agora vai tentar reabrir o inqurito. Segundo ele, duas testemunhas que, por medo, no depuseram na poca j o procuraram e disseram que tm informaes sobre o caso. 
     A polcia ainda no sabe os motivos do crime. A aventada hiptese de uma disputa pelo patrimnio que Bernardo teria herdado de Odilaine no faz sentido, j que Boldrini teria o controle sobre o dinheiro do filho at ele completar 18 anos. Se o motivo  incerto, a delegada Caroline Machado diz no ter dvidas sobre o que ocorreu na tarde daquela sexta-feira, 4 de abril: de acordo com o relato da assistente social Edelvnia Wirganovicz, a amiga de Graciele, a madrasta de Bernardo levou o menino em sua caminhonete L200 preta at a cidade de Cristal do Sul, onde Edelvnia mora. No trajeto, foi multada por excesso de velocidade. O policial que lavrou a multa disse a VEJA ter visto o menino no banco de trs  acordado e com cinto de segurana. Na casa de Edelvnia, Graciele dopou Bernardo e depois o matou com uma injeo letal. O corpo do garoto foi encontrado enterrado numa vala na vizinha cidade de Frederico Westphalen. Segundo os investigadores, imagens de cmeras de segurana mostram Graciele e Edelvnia no carro com o menino, e depois, sem ele. O pai no teria participado da execuo, mas ajudado a acobert-la, acredita a polcia. Em depoimento, Boldrini negou qualquer envolvimento no crime. Graciele no se manifestou. Na tera-feira passada, depois da priso do casal, moradores da cidade foram  casa deles na inteno de incendi-la. Foram contidos pela delegada, que disse que poderiam destruir provas. Por muito tempo, o grito de socorro de Bernardo ainda ecoar em Trs Passos. 

FELICIDADE DE FACEBOOK
No dia 11 de janeiro de 2012, Graciele registrou em sua pgina no Facebook que estava "em um relacionamento srio". A partir da, postou diversas fotos ao lado de Boldrini e, mais tarde, com a filha que teve com ele em 2013. Bernardo no aparece em nenhuma das imagens. Tambm no h fotos dele no Facebook do pai. Graciele, ex-enfermeira, identifica-se na rede social como "scia da clnica Leandro Boldrini".

DO ABANDONO  MORTE
Bernardo foi sozinho ao juizado em busca da ajuda que no chegou a tempo.
 Nov/2013 - Uma assistente social de Trs Passos relata  promotora Dinamrcia de Oliveira sua preocupao com a situao de Bernardo, pois ouviu vrios comentrios na cidade sobre o abandono afetivo do "filho do mdico". E pergunta se o Ministrio Pblico tem medo de tomar uma providncia porque a famlia  de classe alta 
 29/11/2013 - A promotoria recebe um relatrio do conselho tutelar informando que o menino era vtima de negligncia familiar e que precisava de acompanhamento, mas seu pai, Leandro Boldrini, insistia que estava tudo bem e que o conselho deveria se preocupar com crianas carentes. No mesmo dia, chega uma carta da escola dizendo que o menino tinha problemas afetivos, que se recusava a fazer as tarefas e era fechado. O pai havia sido procurado pela escola, mas no se importou 
 3/12/2013 - Um relatrio feito pelo conselho tutelar mostra que Bernardo era rejeitado pela madrasta e comia e dormia na casa de amigos. O texto citava uma famlia "do corao" de Bernardo, em cuja casa ele passava fins de semana sem o pai saber onde estava 
 11/12/2013 - O conselho tutelar informa  promotoria que o pai no havia levado Bernardo a uma entrevista com um psiclogo e se recusava a receber os assistentes sociais 
 16/12/2013 O advogado da av materna de Bernardo, Jussara Uglione, manda um e-mail  promotoria pedindo os documentos do processo, porque ela tinha inteno de ficar com a guarda do neto 
 13/1/2014 - Jussara deveria ser ouvida pelo Ministrio Pblico em Santa Maria, onde vive, mas pediu que o depoimento fosse adiado, pois queria falar ao lado de Bernardo 
 24/1/2014 - Bernardo vai sozinho ao 4 andar do Frum de Trs Passos, onde fica o Centro de Defesa dos Direitos da Criana e do Adolescente. Ali conta que era ofendido diariamente pela madrasta, que o pai no se importava com ele e, por isso, queria viver com outra famlia. Funcionrios do centro levam Bernardo para falar com a promotora Dinamrcia, responsvel por casos que envolvem crianas 
 27/1/2014 - A promotora procura a famlia indicada por Bernardo, mas ela se recusa a ficar com o menino, alegando que no quer se indispor com o pai dele 
 31/1/2014 - O Ministrio Pblico pede  Justia que d a guarda de Bernardo a sua av materna, como uma medida para proteg-lo: O juiz Fernando Vieira Santos, da Infncia e Juventude, marca uma audincia com o pai do garoto 
 11/2/2014 - Em audincia, Boldrini diz que no quer entregar seu filho e pede uma chance de reaproximao. O juiz d um prazo de noventa dias para reavaliar a situao e marca nova audincia para 13 de maio,  qual Leandro e Bernardo devem ir juntos 
 14/4/2014 - O corpo de Bernardo  encontrado enterrado s margens de um rio em Frederico Westphalen, cidade prxima a Trs Passos

ELE ESTAVA "MAGRINHO" E CALADO, DIZ AV 
Jussara Uglione, 73 anos, av materna de Bernardo, tentava manter contato com o neto desde a morte da filha, em 2010. Em janeiro, encontrou-o pela primeira vez em quatro anos. 
A senhora tinha uma boa relao com Leandro? Nunca gostei dele. Nem fui ao casamento dele com a Odilaine porque no fazia gosto. 
Por que ele e sua filha se separaram? Leandro andou pulando a cerca, sempre foi "chineiro" (mulherengo). Essa mulher (Graciele) era uma das que mais andavam com ele quando ainda era casado com minha filha. Ela trabalhava num posto de sade desses de interior e depois foi ser secretria dele. 
A senhora acredita que Odilaine se suicidou? No. Ela era miudinha, no tinha condies de espichar o brao com um 38 na mo e atirar nela mesma. Sempre desconfiei dele. 
Qual foi a ltima vez que viu seu neto? Em janeiro ele veio a Santa Maria. Fomos ao supermercado, levei-o para patinar no gelo. Mas, quando o vi, nem parecia o mesmo Bernardo que eu conhecia, de to magrinho. 
H quanto tempo no o via? Quatro anos. O Leandro no deixava eu visit-los. Desde que minha filha morreu, quis romper conosco, disse que estava numa outra etapa da vida. Eu ligava, fui vrias vezes a Trs Passos, mas ele no me atendia e no me recebia. 
Bernardo se queixava do pai ou da madrasta? Via que ele no podia falar muita coisa de casa. Ficava mais calado. Eu perguntava: "Como est a vida por l?". Ele s dizia: "Muito diferente". Ou ento: "A Keli (apelido da madrasta) brigou comigo". 
Leandro era um dos mdicos mais conceituados da cidade, tinha um bom padro de vida. O Bernardo desfrutava isso? 
Os amigos contam que ele andava mal-arrumado, pedia comida. Desde que a me dele morreu, meu neto no ganhou uma roupa nova.

COM REPORTAGEM DE PIETER ZALIS, LUCIANO PDUA, LUCAS SOUZA, FELIPE FRAZO E ALANA RIZZO


